terça-feira, 31 de outubro de 2017

Autoestima e transtornos mentais e afetivos

"I shut my eyes and all the world drops dead. 
I lift my lids and all is born again." 
__ Sylvia Plath



Muita gente hoje me vê, vê esse meu jeito decidido, forte, intenso, passional, apaixonada pela vida, essa autoestima que eu levei árduos anos para construir desde lá do fundo do poço (inclusive Samara vai bem e manda lembranças), às vezes interpretado, muito erroneamente, como uma maneira de ser esnobe: não, não é. Muito disso tudo é devido a uma personalidade teimosa e impulsiva, e mais ainda é devido ao medo. Muito do que você vê nessa foto não passa de uma couraça, de uma concha, de um escudo de titânio farpado com o qual eu aprendi a me armar, desde muito nova, para me defender e dar conta de sobreviver neste mundo muitas vezes tão hostil. 

Durante toda a minha vida eu sofri muito, muito bullying por ser alguém diferente, por ser demasiadamente introspectiva e tímida e não interagir com os coleguinhas da escola. Isso durou até por volta dos meus 14 anos, quando me envolvi com a arte e comecei a fazer dança e teatro. Acreditem: a arte é uma das terapias mais bonitas, poderosas e eficazes que existem. Mas então o mal já estava feito. Minha auto-estima era absolutamente nula, apesar de ouvir das pessoas que eu era bonita, mas eu nunca acreditei. Sofri, aos 19 anos, um descontrole de peso que dura até os dias de hoje. E aos 18 anos eu comecei a sofrer de Depressão, intensa e insuportável ansiedade, crises nervosas e ansiosas, fobias, Despersonalização, Tricotilomania, Síndrome do Pânico, Agorafobia, Claustrofobia, Fobia Social, fobia intensa de falar em público (nisso a fluoxetina me aliviou bastante durante certo período, mas isso sou eu; procure um profissional para estudar o seu caso, por favor), e enfim descobri que sou Bipolar, mas o diagnóstico foi ratificado depois para Transtorno de Personalidade Borderline. Os limites entre um transtorno e outro nunca são muito claros, e a própria @_danielalima, filósofa, escritora e especialista em transtornos mentais e afetivos, me disse que não gosta de diagnósticos e que não seria bom tentar me encaixar, me limitar a eles. 

De maneira que estive, por incontáveis vezes, no pior dos infernos e também no melhor dos paraísos. Sempre mergulhando intensamente em tudo. É bonito isso? Talvez, na literatura, na poesia, no cinema, na arte, enfim. Mas tudo isso é extremamente pesado de se lidar e de se carregar. Toda essa intensidade. E cada um lida à sua maneira. Muitos, como Kurt Cobain, Amy Winehouse e Robin Williams tentaram, e seguraram muito a barra enquanto puderam, mas acabaram infelizmente não resistindo. 

Este ano eu fiz 40. E ainda estou de pé, querendo muito viver e lutar bravamente. Porque eu acredito muito que vale a pena. Só de estar vivo e poder sentir tudo isso, conhecer tudo isso, é absurdamente incrível e sou eterna e imensamente grata por tudo. Tudo. Cada experiência única, "boa" ou "ruim". E bom ou ruim é uma questão de olhar, de percepção, de perspectiva. 

Eu já passei anos inteiros mergulhada na mais arrasadora depressão, e só conseguia pensar em morrer. Em um desses anos, 2012, ano em que passei inteiro trancada no quarto, com pavor de sair e de ter que encarar as pessoas e o mundo (surto de fobia social), aproveitei para aumentar os meus conhecimentos sobre cinema e vi toda a videoteca de meu pai. Toda. E foi só o que consegui fazer naquele ano. Até medo dos meus próprios familiares eu tinha, e muitas vezes saí do quarto escondida, de madrugada, procurando alguma garrafa de bebida pra virar, ficar tonta e conseguir encarar o dia seguinte. Sofri muito. Muito. Mas com a ajuda de meu pai, com a compreensão da família e especialmente com a ajuda especializada de uma psicóloga e de um psiquiatra, eu fui aos poucos me fortalecendo de novo. 

Em 2013 eu já estava mais confiante, e recomecei a erguer as fundações da minha auto-estima perdida e de toda a vida adulta lamentavelmente desajustada e solapada por problemas de saúde, com origem em vários fatores, um deles o intenso bullying sofrido na infância. Eu era só uma menininha sem maldade e cheia, cheia de amor no coração. Mas era diferente. Diferente. Percebem o peso, o mal que a sociedade provoca em tudo o que é diferente e ameaça sua frágil, falsa, ridícula e inexistente "estabilidade"? 
"Guerra é paz! Liberdade é escravidão! Ignorância é força!", poderia gritar agora o "Grande Irmão" de George Orwell, dando início aos seus "2 minutos de ódio". Ficção?

Enfim, no final do ano de 2013 eu comecei a me ver como gente novamente, e não como lixo. Fui refratada pelo olhar de alguém, e em cada fragmento eu vi luz, cor, poesia, beleza. Eu realmente não era feia! Feministas de plantão dirão que olhar de homem algum é capaz de validar tudo o que uma mulher é, em toda a sua riqueza e complexidade. Eu, como humanista logosófica e universalista, cito o saudoso Rubem Alves, psicanalista, educador, teólogo e escritor, que uma vez escreveu algo assim: "quando a atenção de alguém é focada em algo ou em outra pessoa, essa atenção é como se fosse o Sol que irá fortalecer e fazer crescer e florescer aquilo em que se focou, assim como o Sol é para uma planta." E assim é. A atenção do outro, o carinho do outro, a empatia do outro, o amor do outro, tudo isso dá vida a esta imensurável rede da qual fazemos parte. Se olhássemos mais uns pelos outros, provavelmente seríamos capazes de trazer a cura áquela pequena célula doente em nossa sociedade, e assim sucessivamente, até que todo o "tecido" estivesse curado. Talvez isso seja utopia nos dias de hoje. Talvez amanhã não seja mais. Quem pode saber?

Enfim, 2014 foi um ano de muita mudança para mim. Voltei a gostar de mim e da vida, voltei a ver beleza em tudo, voltei a cantar em casa e pela rua, voltei a viver. Naquele ano peguei um trabalho coreográfico para a festa junina da Igreja Católica da paróquia, mesmo sem ser mais católica desde os meus 13, 14 anos. Foi um trabalho beneficente, achei que me faria muito bem. E não estava errada! Trabalhar com crianças de novo, ah! Que delícia, que gratificante! Fiz também um trabalho lindo com a turma de catequistas. Foi imensamente lindo, prazeroso e gratificante! Guardo num cantinho especial aqui no peito todos os que conheci naquela época, e só tenho a agradecer! E isso me fortaleceu e encorajou muito, e eu estava realmente me sentindo bem. 

Então planejei começar a voar de novo. Estendi uma asinha, depois a outra... dei uma espreguiçadinha e comecei a traçar meus planos, meticulosamente. Ah, dessa vez daria certo! Mas acabei me baseando em dados instáveis, incertos, sem me dar conta disso, e me joguei cegamente, arriscando uma mudança de cidade. Eu desejava sair do conforto, caminhar, estar em movimento novamente, porque nada me angustia e acaba mais comigo do que ser pássaro e não poder voar, do que não poder estar sempre em movimento, aprendendo, crescendo, aprendendo e evoluindo eternamente. E eu me joguei no ano de 2015. Bem no início. 

Estava preparada para tudo, queria me lançar na vida, passar dificuldades, quebrar a cara mesmo e crescer. Mas estar livre, enfim. Só que eu não contava com a dureza do poste no qual eu me arrebentei. Ano do início da crise no país. Tudo, tudo o que eu planejei deu errado, ítem por ítem. Tudo. Deu. Errado. E fui puxada novamente, como se por um teimoso elástico, de volta à cidade em que nasci e me criei. Novamente. E outra vez mergulhei em depressão. Ganhei muito peso e por um bom tempo eu tive muita vergonha de mim. De ser assim. De ser. De existir. Mas toda ordem tem que surgir de algum lugar, não é? A minha começou a surgir ali, de toda a dor e de todo o caos. E fui aos poucos me fortalecendo e voltando a me gostar e valorizar. Foi um ano de aprendizado intenso. Muito intenso. Dez anos em um, costumo dizer. 

E logo veio outro olhar amoroso jogar sua imensa luz sobre mim, e eu floresci ainda mais. Gratidão eterna. Eterna. 2017 foi outro ano de mudanças internas intensas, especialmente do último mês para cá. Mais dez anos em um. Ou mais cem, talvez? Muito aprendizado de uma vez só, muita coisa para se digerir e colocar em prática. Este é só o início. Do blog e de todas as mudanças que por certo virão. Muito obrigada por terem se disposto a me acompanhar até aqui. E só vai ficar melhor!


P.S.: Por que escolhi os dois primeiros versos do poema de Sylvia Plath para a "chamada" do blog? Primeiro porque "Mad Girl's Love Song" é um dos meus poemas favoritos no mundo e fala sobre loucura e a possibilidade de alucinações. Depois porque eu tomei a liberdade de ressignificar os versos da seguinte forma:

"I shut my eyes and all the world drops dead." 
(Eu fecho os meus olhos e o mundo inteiro cai morto: Depressão)

"I lift my lids and all is born again." 
(Eu ergo minhas pálpebras e tudo nasce outra vez: momentos de estabilidade e bem estar que podem preceder uma crise de Mania)

Então, que possamos um dia, enfim, manter juntos nossos olhos despertos e atentos no sentido do conhecimento, do crescimento e da cura.

Fiquem em paz!

Lúcia

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4 comentários:

  1. Quero ser teu espelho, nada mais que teu espelho e te mostrar quanta coisa maravilhosa você foi, é e ainda pode ser. Que venha a continuidade desse projeto, e que venha a continuidade da sua trajetória. E que seja tão épica quanto você.

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    1. Ohh meu amor! Obrigada! Seremos o espelho um do outro e juntos vamos crescer. O céu não é o bastante pra nós! ;) ♡

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  2. Desejo-lhe sucesso, Lúcia, e um caminho de luz.

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    1. Muito, muito obrigada, Márcia! Sucesso e luz pra todos nós! Beijos!

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