quinta-feira, 23 de novembro de 2017

"A doença traz a dor e a cura"

Pérolas Aos Poucos

Composição: José Miguel Wisnik
Intérprete: Ná Ozzetti
Piano: André Mehmari

Eu jogo pérolas aos poucos ao mar
Eu quero ver as ondas se quebrar
Eu jogo pérolas pro céu
Pra quem pra você pra ninguém
Que vão cair na lama de onde vêm

Eu jogo ao fogo todo o meu sonhar
E o cego amor entrego  ao deus dará
Solto nas notas da canção
Aberta a qualquer coração
Eu jogo pérolas ao céu e ao chão

Grão de areia
O sol se desfaz na concha escura
Lua cheia
O tempo se apura
Maré cheia
A doença traz a dor e a cura
E semeia
Grãos de resplendor
Na loucura

[ eu jogo ao fogo todo o meu sonhar
eu quero ver o fogo se queimar
e até no breu reconhecer
a flor que o acaso nos dá
eu jogo pérolas ao deus dará]


Obstáculos, saúde, ciência, espiritualidade

Longe de querer "arrebanhar", "catequizar" alguém com minhas ideias, eu sou apenas um ser humano em busca, procurando compreender e se compreender, esse pedacinho de vida pairando sobre uma esfera num espaço tão vasto e bonito quanto ainda desconhecido, e busco, e questiono, e questiono e volto a questionar feito a eterna criança arrebatada pela existência que sou: por quê? Por quê? Por quê? 

Não venho oferecer nenhuma certeza, até pela propriedade extremamente mutável e adaptável de tudo, desde paisagens que se transformam com o tempo até nossas próprias conexões neurais. Não trago respostas para oferecer. Me interessam mais as perguntas. E como é boa a liberdade implícita em cada questionamento, em cada especulação. A princípio me interessei por este vídeo pela possível ligação feita entre karma e transtornos mentais. Karma é um conceito extremamente familiar a quem segue alguma linha de pensamento oriental, ou a doutrina espírita Kardecista, por exemplo. Mas o que é karma senão um conjunto de consequências do caminho que cada um escolheu seguir, aliado à genética e a todo um conjunto de pensamentos de um indivíduo? E como dissociar matéria e pensamento sob essa ótica? Isso é biologia evolutiva. Isso é Darwin. Isso é Ciência. 

Eu não consigo conceber um processo evolutivo biológico que exclua um processo evolutivo paralelo da consciência e, em consequência, da espiritualidade de cada um. Outro dia comentei na postagem de uma amiga (inclusive, todo o meu respeito ao ateísmo dessa moça de inteligência e beleza inspiradoras) que sempre pensei nesse processo da consciência humana como um processo de "despertar" do Universo, como uma forma do próprio Universo de ir tomando consciência de si mesmo. Todo esse processo de karma de que Monja Coen fala nesse vídeo me faz pensar muito em tudo isso. Num processo muito bonito de evolução conjunta da matéria, da consciência, do pensamento e da espiritualidade, onde, no meu entendimento, cada um desses elementos leva ao outro. Nada contra os que negam esse último "layer" do processo. Apenas acredito que sem ele a vida perde toda uma outra "dimensão de beleza"* e de sentido. 

"Eu gosto muito das tradições de origem africana, que falam que nós temos os nossos ancestrais em nós. (...) Nós somos o resultado de todas as vidas anteriores, não só de algumas que você pode lembrar. Nós somos a vida da Terra. Antes da vida humana nós já estávamos aqui. Antes da ameba nós já estávamos aqui. A nossa ancestralidade é muito maior do que aquilo que você possa na sua mente criar como 'eu fui isto' ou 'eu fui aquilo', e 'por isto eu tenho este ou aquele karma.' " (Monja Coen) 


* Expressão de Milan Kundera em "A Insustentável Leveza do Ser", colocada no texto só pro namorado não me destituir do posto de "Miss Referência" no qual ele me colocou. ;p

sábado, 11 de novembro de 2017

Ismália

Imagem: @topthatpose


"Ismália"
Alphonsus de Guimaraens

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Balada do Louco

"Balada do Louco"
Ney Matogrosso

Dizem que sou louco por pensar assim
Se eu sou muito louco por eu ser feliz
Mais louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz

Se eles são bonitos, sou Alain Delon
Se eles são famosos, sou Napoleão
Mais louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz

Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu

Se eles têm três carros, eu posso voar
Se eles rezam muito, eu já estou no céu
Mais louco é quem me diz
E não é feliz, não é feliz

Eu juro que é melhor
Não ser o normal
Se eu posso pensar que Deus sou eu

Sim sou muito louco, não vou me curar
Já não sou o único que encontrou a paz
Mais louco é quem me diz
E não é feliz
Eu sou feliz


Parem este mundo perfeito porque eu quero descer!

“Are you sure what side of the glass you are on?”
Nine Inch Nails

17 de Outubro de 2015

Hoje me entristeci vendo na tevê uma menina extremamente linda e talentosa, e já devidamente notada, com uma luz linda, olhos e sorriso extremamente apaixonantes, inteligência e expressividade absolutamente encantadoras e fluentes, procurando pertencer e se encaixar adequadamente, sem erros ou riscos, quando entregaram um pincel em sua mão e lhe permitiram rabiscar uma parede. Ela procurou o que havia de mais limitado e quadrado em toda a parede: o quadradinho do interruptor de luz, que por sua vez estava dentro de outro quadrado perfeitamente padronizado, adequadamente encaixado em toda a estrutura daquela parede igualmente padronizada, quadrada, e branca. E coloriu aquele quadradinho. Completa e perfeitamente.

Vivemos neste mundo de aparência insanamente perfeita, buscando sempre mais desta mesma, bem, perfeição. Estampando sempre sorrisos e maquiagens e cabelos perfeitos, com chapinhas perfeitas, em imagens perfeitas, em redes sociais perfeitas, em compartilhamentos perfeitamente curtíveis, por trás dos quais levamos uma vida perfeitamente insatisfeita, e infeliz. Um mundo em que se algo ou alguém nos interessa de maneira extremamente viva, intensa, passional, e nos desperta qualquer espécie de comportamento não padronizado, é porque estamos loucos, e precisamos nos tratar. Um mundo onde temos cada vez mais motivos para nos tratar, cada vez mais remédios disponíveis, cada vez mais transtornos mentais sendo descobertos, e cada vez mais diagnósticos perfeitamente imprecisos. Porque devemos ser razoáveis. E, se possível, rasos. Devemos nos adequar a um padrão cinzento e morno de comportamento. Devemos nos encaixar na sociedade de maneira correta, de preferência em um formato mental que seja pouco ou nada mutável, porque assim fica mais fácil de lidar, de marchar adiante sem maiores questões, sem exaltações, de maneira que não precisemos sequer pensar demais para realizar o que quer que seja. De maneira que governar, manipular e lucrar desonestamente seja tarefa relativamente fácil.

Faz-se notar, de maneira ligeiramente curiosa e sutil, que são justamente as paixões intensas que nos arrancam do lugar, e que nos movem na direção de algum progresso. Toda espécie de criatividade nasce de alguma paixão, de algum tipo de deslize precipitado, de um caminho que alguém tentou traçar de maneira diferente na direção de um desejo intenso por algo, ou por alguém. Somos todos frutos do mais puro tesão. Eu, você, aquelas formiguinhas no seu pedaço de bolo e na sua xícara de café. E o fato é que vivemos, sistematicamente, tentando cercar riscos, traçar rotas seguras, minimizar erros que nos levariam a caminhos diferentes e criativos, encaixotar mentes brilhantes que poderiam vir a mudar alguma coisa de forma positiva, se ao menos as deixassem em paz com suas paixões e obsessões, aquelas que não ferem a ninguém. Se ao menos elas mesmas conseguissem deixar-se em paz. Se não houvesse culpa no tesão. Se não houvesse risco no desejo. Se não houvesse uma condenação implícita em cada pequeno deslize. Em cada tentativa fracassada de sair da segurança e do conforto das rotas conhecidas. Se cada impulso arriscado não fosse chamado de loucura, e se cada um desses loucos perigosos não fosse imediatamente diagnosticado e medicado. Para o seu próprio bem. Para o bem da sociedade. Se cada um desses loucos pudesse ser valorizado por tudo aquilo que realmente os caracteriza. Se a essência daquilo que os caracteriza não fosse composta pela mais pura, e insana, coragem. Se o mundo não precisasse tão desesperadamente dos erros, e dos desajustados e desmedidos, para dizer-se são. E então seguir, às custas deles, progredindo. Se conseguíssemos, enfim, admitir que toda regra inclui necessariamente aquilo a que chamamos erro, e todo progresso, o que chamamos desvio.

“And it’s all right where it belongs.” Está tudo certo. Sigamos encaixotando Dom Quixotes. Estamos exatamente onde deveríamos estar. Da maneira como deveríamos estar. Ajustados. Perfeitamente ajustados. Ou procurando, loucamente, nos ajustar. Está aí o resultado de toda essa perfeição. Pois parem. Parem este mundo perfeito. Porque eu quero descer.



(Publicado originalmente em 17 de Outubro de 2015, em http://procurealemdoveu.blogspot.com.br/)

Ressignificando versos

Acho importante explicar aqui o título do blog e os versos que coloquei na descrição.

O título vem de um dos meus poemas favoritos no mundo: "Mad Girl's Love Song", de Sylvia Plath. Quer dizer algo como "a canção de amor da garota louca", e sugere loucura e a possibilidade de alucinações sofridas por uma garota enlouquecida de amor e de paixão. Aqui eu substituí "song" por "book", "livro", porque a ideia é fazer uma espécie de diário sobre minhas experiências com transtornos mentais e afetivos. Diário que pode bem acabar virando realmente um livro mais tarde, se assim eu o desejar.

Sobre os primeiros versos retirados do poema: eu tomei a liberdade de ressignificá-los da seguinte forma:

"I shut my eyes and all the world drops dead."
(Eu fecho os meus olhos e o mundo inteiro cai morto: Depressão)

"I lift my lids and all is born again."
(Eu ergo minhas pálpebras e tudo nasce outra vez: momentos de estabilidade e bem estar que podem preceder uma crise de Mania)

Então, que possamos um dia, enfim, manter juntos nossos olhos despertos e atentos no sentido do conhecimento, do crescimento e da cura.

Beijos e fiquem em paz!

Lúcia




Timidez ou transtorno de ansiedade?

Eu, como a Louie, já passei por muitas dessas situações. Mas até que ponto é timidez e insegurança e até que ponto é um transtorno de ansie...